Crianças e cães malcriados dão quase na mesma

BARBARA GANCIA
Volto a bater na tecla da lei que pretende proibir a criação e a venda de cães pit bull, mastim e rottweiler, que deve ser sancionada (ou não) em breve.
Veja o que diz sobre esse tipo de legislação a professora da Universidade do Kansas Janice Swanson, uma autoridade em comportamento animal: "Alguns governos decidiram que as pessoas não têm responsabilidade, então eles partiram para a proibição. Mas pegar uma raça como alvo e considerar perigosos todos os cães dessa raça é uma injustiça".
Se o que a professora diz é verdade, ao ratificar ou descartar a nova lei, o governador Alckmin estará, na realidade, julgando se a população tem ou não responsabilidade para possuir animais de estimação.
Se você analisar como são educadas as crianças tapuias, especialmente aquelas das classes mais altas, provavelmente chegará à conclusão de que nós não somos exatamente os melhores educadores do mundo. Seja de gente ou de maritacas.
O brazuca costuma tratar o filho como se ele estivesse acima do bem e do mal. Desde a tenra idade, tudo é permitido. Se o guri cola na escola, é aplaudido em casa. Se se mete em confusão com a polícia, os pais são capazes de vender tudo o que têm para livrar a cara dele. Basta ver a quantidade de crianças correndo e gritando livremente nas pizzarias aos domingos para saber que impor limites na infância é um conceito que não nos comove.
Da mesma forma que não sabemos encaminhar para a vida os nossos descendentes, também temos grandes dificuldades com os cães. Veja o exemplo do labrador. Usado como cão-guia com grande êxito em outros países, no Brasil o labrador muitas vezes é agressivo e difícil de adestrar. Isso não pode ser um acidente geográfico. É bem mais provável que a maioria dos labradores desobedientes seja proveniente de canis que não souberam lidar com eles e seus antepassados quando pequenos. Cães são como crianças. Precisam ter limites estabelecidos desde cedo. E, como descendem do lobo, um animal de matilha, eles têm grande apreço pela hierarquia e suplicam para que ela lhes seja imposta. A diferença é que os cães desobedientes não são como os filhos malcriados, que crescem para usar frases como: "Sabe com quem está falando?". Eles se tornam perigosos.
Não podemos multar os pais que educaram mal os filhos, mas, antes de tomar medidas drásticas, que tal começar aplicando multas pesadas nos donos de cães que ferem?
Folha de S. Paulo 27/09/02, p. C – 2.


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